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Bauman foi mais esperto (IX)


O verme se encolhe quando pisado. Uma atitude prudente. Diminui assim a probabilidade de ser pisado outra vez. Na linguagem da moral: humildade.” Diz Nietzsche em “Crepúsculo dos ídolos”. É a atitude que nós, vermes seres humanos, precisamos às vezes tomar. Encolho-me, muitas vezes, para não ser mais pisado, para sobreviver. Talvez não seja humildade isso. Não, não é. Essa moral é justamente o que o filósofo tenta destruir e não a quero mais para mim. Deixei de ser humilde, afinal, mesmo o sendo por alguns momentos nesses mais de três décadas de vida, os outros não me veem dessa forma. Já fui taxado de arrogante quando emiti minhas opiniões nem sempre agradáveis às mentes acomodadas. Que o seja, então. Arrogo-me o direito de ser arrogante. Agora não me importam mais os outros.
“O que não me mata me torna mais forte”, escreve o mesmo Nietzsche no mesmo livro. Aforismo que quase nunca é atribuído a ele. Ser um super-homem, um além-do-homem, superar as minhas próprias fronteiras, eis o caminho que decidi seguir. Chega de ser humilhado, ridicularizado. Vou mostrar apenas aquilo no que sou bom e deixarei na penumbra aquilo que talvez não me contemple, apesar de me sustentar, pelo menos financeiramente. O que faço de melhor não me mantém, não mantém minha família, mas mantém minha dignidade, meu orgulho, me mantém de pé.
Sim, sou um verme, o verme machadiano que roeu as frias carnes de Brás Cubas. Foi a mim que ele dedicou suas memórias. Sou um “operário de ruínas”. É dos escombros da vida, da minha é a dos outros, é da carne podre do ser humano que retiro a minha literatura. Declaro guerra à vida como o verme do poema de Augusto dos Anjos, mesmo vencido. Essa guerra se dá na garagem que transformei em biblioteca e lugar de escrita. Toca, bunker, caverna, não sei ainda como denominá-lo. Às vezes digo apenas “o meu canto”. Um lugar agora iluminado apenas por uma lâmpada sobre os teclados, refletindo minha enorme sombra na parede enquanto escrevo mais essa página do meu diário. Posso ser pequeno, mas minha sombra será sempre maior e assombrará ainda por muito tempo àqueles que querem me pisar.

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