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Quem leva a sério a escrita é o que se dá bem?

Escrever é um troço complicado para quem o leva a sério e para quem não o leva também.
Quem leva essa atividade a sério quer escrever bem, enquanto o outro não sabe escrever e não quer escrever bem.
O primeiro inventa desculpas para não se afastar do texto e realizá-lo da forma mais elaborada possível. Corrige, reescreve, corta, substitui palavras, cria. O segundo inventa mil desculpas para não escrever e, se é obrigado, o faz da forma menos elaborada possível. Escreve qualquer coisa, não reescreve, não corta (se não o texto desapareceria), deixa as palavras como estão, copia da internet, reproduz.
O primeiro escreve para fazer arte, às vezes sem pretensão, às vezes esperando publicar e ser lido, ou para opinar sobre algo, recebendo dinheiro por isso ou não, desejando apenas ser lido e discutido e que suas ideias repercutam. O segundo escreve porque alguém solicitou (professor, chefe), e a pretensão é a necessidade de receber uma nota mínima só para passar de ano e receber um diploma ou porque faz parte de uma das atividades da sua profissão fazê-lo e precisa do salário ou subir de cargo.
O primeiro acha que precisa ler cada vez mais para poder escrever. O que leu nunca é o suficiente para criar seus textos. O segundo acha que ler é uma perda de tempo, que foram coisas inventadas por professores desocupados, ou então se arrepende por não ter lido mais na sua juventude e não ter atendido ao apelo do professor para que o fizesse e agora não sabe o que pôr no papel.
O primeiro é inteligente, culto, ignorante em algumas coisas, porém sempre busca saber o que não sabe. O segundo é burro, inculto, ignorante em quase todas as coisas e quase nunca busca saber o que não sabe.
O primeiro, no entanto, geralmente não se dá bem no mundo dos espertos. O segundo geralmente se dá bem, pois, se não tem escrita, tem a lábia para desdobrar seu chefe, delega a atividade a outro, porém levando os louros da vitória, sabe escapar das obrigações, paga alguém para realizar as atividades no seu lugar, é promovido porque se dá bem com seu superior e outras pessoas, não bate de frente com eles, não contesta, diz o que eles querem ouvir, os elogia sempre que pode e recebe de volta elogios por isso, expõe nas redes sociais ou nas conversas com seus colegas somente seus feitos positivos e somente os elogios, escondendo todas as cagadas que fez e as críticas que sofreu por isso.
O primeiro, enfim, representa aqueles que nasceram nessa vida para levar porrada como o eu-lírico pessoano. Nasceram para ver os outros se esquivarem das porradas  e vencerem. É um fracassado, porém é feliz dessa maneira.

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