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Repostando um conto

Eu iria escrever que não estou postando aqui no blog aqueles que eu considero os meus melhores (ou menos piores) contos, pois os reservo para um futuro livro. Porém, não lembrei que eu havia postado o conto “Feliz aniversário” no ano passado. Não que eu o considere um dos melhores, mas o conto me proporcionou um dos raros momentos de reconhecimento (se é que o mereço) quando foi escolhido pelo professor Marco Antônio Vieira para ser trabalhado na cadeira de Estilística do Curso de Letras da Unisc (Universidade de Santa Cruz do Sul), em 2002 ou 2003 (depois confirmo a data). Um professor doutor, com uma bagagem de leituras enorme, além de ser de Minas Gerais, terra dos melhores contistas do país, ter lido e compreendido o que eu queria passar foi um orgulho muito grande para quem estava começando. Ainda outro professor já havia sugerido uma crônica minha (Pascoalina, publicada aqui) para ser trabalhada na cadeira de Literatura Brasileira II e algumas colegas fizeram uma representação teatral do texto e depois uma análise. Mas a crônica ainda era muito prematura. Já o conto, eu penei trabalhando nele para ter o efeito que queria dar. E na aula em que o professor trabalhou o texto, ele demonstrou o que propus.

Para quem não leu, publico o conto de novo.


Feliz Aniversário

por Cassionei Niches Petry

Até amanhã, Cláudia. Até amanhã, Sr. Vítor. Está indo mais cedo hoje? Pois é, tenho que comprar um presente pra minha filha. É o aniversário dela, sabe. Diz que eu estou mandando um abraço pra ela, Sr. Vítor. Pode deixar. Sai apressado, se despede de outro funcionário. O senhor não sabia que estou saindo de férias, seu Vítor? Boas férias, então. A recepcionista faz sinal com o dedo, está ocupada no telefone. Essa um dia eu traço, ele pensa. No estacionamento, encontra o flanelinha. O senhor cuida que os pneus estão carecas. Não se preocupe, Dudu, vou trocar eles amanhã. Entra no seu inseparável Monza vermelho, o primeiro carro que comprou quando os negócios começaram a crescer, e enfrenta o perigoso trânsito da cidade.

***

Ela põe a roupa dada por sua mãe de presente de aniversário. Mira-se no espelho e lembra que há bem pouco tempo era uma jovem magricela, mal vestida, motivo de risos das colegas do colégio. Quando seu pai montou a empresa e começou a ganhar dinheiro, tudo mudou. Entrou numa academia de ginástica, adquiriu as melhores roupas das lojas, fez novas amizades e passou até a aparecer na coluna social do jornal. Além disso, arrumou também muitos namorados, até se apaixonar decididamente pelo filho do diretor da maior fumageira da cidade. É pelo namorado que ela espera ansiosamente. Prometeu uma noite especial, e ela já imagina onde será.

Teu namorado chegou, grita a mãe atrás da porta. Fala que eu ainda vou demorar um pouco, responde, querendo se fazer de difícil. Coloca uma camisinha na bolsa e sorri para o seu rosto no espelho: adeus, menininha!

***

Vocês precisavam ver, diz um pipoqueiro para os curiosos, o carro vinha na contra-mão e deu de cara com a camioneta. O corpo do motorista está entre as ferragens e ninguém sabe se está vivo. E os bombeiros que não aparecem para tirar logo o desinfeliz dali, reclama o dono de uma loja cujos clientes foram todos para a rua ver o desastre. O motorista da camioneta está sentado no meio-fio da calçada e repete chorando eu não tive culpa, eu não tive culpa.

***

E o pai que não vem, hein?, diz a aniversariante, irritada. Calma, filha. Decerto foi comprar um presente pra ti e não conseguiu se decidir ainda. Eu quero sair logo com o meu namorado e não vou ficar esperando o pai, droga. Por favor, filha, ele não te viu hoje e gostaria tanto de te dar um abraço. Ah! mãe, ele que se dane!

***

Os veículos foram retirados e, aos poucos, os curiosos vão indo embora. Por todo o asfalto, há manchas de sangue e cacos de vidro. As lojas já estão fechadas, mas o pipoqueiro continua trabalhando. Ao lado, sua filha brinca com uma boneca que achou perto de um dos carros, embrulhada num papel colorido.

***

Estão saindo na porta quando o telefone toca. A aniversariante volta correndo para atender. Alô! Oi, pai. Obrigada, pensei que tinha esquecido. O senhor vai demorar pra vir? Que pena. Tem uma reunião com uma pessoa muito importante e não sabe que horas vai chegar, mãe. Tá mandando um beijão pra senhora e manda dizer que ama muito a gente e pra gente nunca esquecer ele. Que papo estranho, pai... E o meu presente, o senhor vai trazer? Hein, pai? Pai! Responde, pai.

Do outro lado da linha, apenas um suspiro.

Comentários

Leandro Haupt disse…
Conto interessante.
Confesso que tive que ler 3 vezes para entender :X

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