Quem pergunta, quer saber

Jacek Yerka

por Cassionei Niches Petry

Filosofar é buscar dúvidas, não buscar certezas. Pode parecer estranha essa afirmação, mas é como encaro a busca pela sabedoria. Como disse Francis Bacon, “se alguém começa algo com certeza, terminará com dúvidas; porém, se começar com dúvidas, conseguirá terminar com certeza.” Por isso o ponto de interrogação, não o ponto final, deveria ser o sinal mais utilizado pelo filósofo.

Observe, caro leitor, este ponto utilizado sempre que perguntamos algo: ? O que nos lembra sua forma? Uma hipótese foi levantada por alguns dos meus alunos, quando desenhei pessimamente o sinal no quadro: não seria a metade de um coração? Nesse caso, nossas perguntas surgem à medida que sentimos algum abalo emocional e precisamos encontrar respostas para nos acalmar. São indagações, portanto, que não necessitam de respostas racionais e são dadas por alguém que garante a certeza delas. “Siga determinado caminho e você vai se dar bem”. As religiões, os livros de autoajuda, palestras motivacionais e etc., são as fontes desse conforto.

Em termos filosóficos, no entanto, essas respostas não servem. Agora, o ponto de interrogação é como um martelo amassando o ponto final, que representa nossas afirmações. A filosofia questiona as verdades estabelecidas e por isso é vista com maus olhos por alguns. Aceitar respostas prontas não é encontrar sabedoria.

O filósofo, então, tenta encontrar outros significados para o ponto de interrogação. Sua forma também é semelhante a uma orelha. Ora, quem pergunta quer ouvir. Filosofar, portanto, seria muito mais saber o que os outros têm a dizer e não afirmar suas próprias convicções. Como diz o senso comum, temos dois ouvidos e uma boca, para ouvir mais e falar menos (apesar de a boca ser maior). Sócrates, o filósofo por excelência, dialogava com seus alunos, fazendo perguntas e ouvindo as respostas e criou, assim, seu sistema de pensamento.

Pense agora, caro leitor, no ponto de interrogação de cabeça para baixo (¿), que aparece, inclusive, no início das frases interrogativas na língua espanhola. Não lembra um anzol de pesca? O filósofo é aquele que lança perguntas para pescar respostas. Acontece que elas estão submersas, escondidas sob a água. Não sabemos se vamos conseguir pescá-las, nem a quantidade, muito menos a qualidade. Nem sempre a resposta que buscamos nos satisfaz, às vezes é cheia de espinhos e não conseguimos engoli-la. Podemos descartá-la ou podemos prepará-la para se tornar de acordo com o nosso gosto. Para ter os melhores peixes, o pescador procura os melhores lugares para pescar. E se os quer grandes, não pode usar um anzol pequeno e fraco.

Assim, quando queremos saber algo, devemos pesquisar onde encontrar as melhores respostas. Temos que mergulhar na leitura, analisar com profundidade o mar de informações que nos rodeia e não fazer afirmações sem fundamento, impondo uma determinada verdade. Mas também é necessário saber perguntar, pois só a qualidade da pergunta vai nos dar as melhores respostas. Se estou certo sobre isso? Não, ainda tenho dúvidas.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Eu te amo" ou sinal do Diabo?

Sobre “Amortalha”, de Matheus Arcaro