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Curando espíritos com remédios


por Cassionei Niches Petry

O Discovery Channel produziu uma série de documentários chamada Assombrações. A Record, uma rede de TV aberta, inteligentemente está reproduzindo a série nos fins da tarde de domingo. Poderia ser um oásis (me perdoem pelo lugar-comum) no meio da fraca e apelativa programação dominical, não fosse pela falta de ceticismo dos episódios e, principalmente, a intenção da emissora em transmiti-los.

Os documentários do Discovery sempre me pareceram ter um ar de seriedade nos assuntos abordados. No entanto, parece que o vírus do “nivelar por baixo” o atingiu. A chamada no site do canal para a série Assombrações é tão apelativa, que chega a ser constrangedor: “Se a existência de lugares assombrados faz você tremer, não perca os mistérios desta série aterrorizante. Mas depois não reclame que os pesadelos atrapalharam o seu sono!” E depois, na descrição dos programas, se utilizam da famosa frase de uma antiga série ficcional: “No final de cada episódio, você irá perceber que a vida e a morte vão muito além da nossa imaginação.” Talvez esteja aí, nas entrelinhas, o real significado da série, pois todos os episódios não passam de fantasia, apesar do tom de veracidade dado pela marca Discovery. Em nenhum momento há alguma contestação sobre os fatos ocorridos, ficando apenas a palavra das pessoas que as vivenciaram como prova da verdade.

No episódio transmitido pela Record no último domingo, é contada a história de um menino que diz ter um amigo imaginário, um homem que acaba influenciando as atitudes do garoto, tornando-o agressivo. A família, sem saber o que fazer, pede ajuda a um índio, que indica um ritual religioso. Não dá muito resultado. Por fim, até a mãe acaba vendo o homem, que se transformou em um demônio na sua frente. Ela só consegue se livrar do espírito maligno com muitas orações. Qualquer semelhança com o que acontece em algumas igrejas não é mera coincidência.

Em nenhum momento a mãe do menino pensou em consultar uma pessoa mais capacitada para cuidar do caso: um psiquiatra. Ver vultos, ouvir vozes, psicografar mensagens de espíritos (como fazia Chico Xavier, que voltou a estar na moda) e outras coisas do gênero têm explicações bem mais simples. Em vez de buscá-las no sobrenatural, porque não as procuramos dentro do nosso próprio cérebro? Uma boa dose de remédio pode resolver. O cientista Carl Sagan afirmou em um dos seus livros, justamente denominado O mundo assombrado pelos demônios: “Se você quiser salvar o seu filho da pólio, você pode rezar ou você pode vacinar... Tente a ciência.”

O canal de TV que transmitiu o episódio é de propriedade de uma igreja que se caracteriza, entre outras coisas ($), por exorcizar demônios. Todos os problemas das pessoas são relacionados a esses espíritos malignos. Logo, a reprodução dos documentários (cabe a denominação nesse caso?) e resolução dos problemas através de caminhos espirituais é para justificar o trabalho da igreja. Ao não mostrar outras interpretações, a rede faz um desserviço à população, ao querer pregar, numa espécie de mensagem subliminar, suas crenças religiosas. Isso pode ser feito em programas específicos, mas não em programas que atingem uma população maior.

Um pouco de ceticismo não faria mal a ninguém. O que seria da humanidade se não duvidássemos das verdades absolutas? Estaríamos até agora acreditando que o eco é uma ninfa da floresta ou que o sol é um ser divino passeando em sua carruagem. Ou ainda que um deus poderoso é o responsável pelos raios que caem do céu. Vamos continuar acreditando que as vozes do além são espíritos e não distúrbios mentais que podem ser curados com remédios?



Comentários

invisible man disse…
muito bom !

vou ler com regularidade !!!
Cassionei Petry disse…
Volte sempre, mesmo invisível.
Mirella disse…
"Em vez de buscá-las no sobrenatural, porque não as procuramos dentro do nosso próprio cérebro?"
De acordo.

Com essa de amigo imaginário, lembrei-me do livro "A Fazenda Blackwood", por Anne Rice. Tarquin Blackwood, desde os primeiros momentos de vida, convive com o seu duplo. Aos outros, esse duplo, o Goblin, aparece em forma de um tipo de energia, enquanto é sólido para Quinn. Só que, nesse caso, profissionais foram procurados. Apesar de Quinn ser bem religioso, fazendo uma leitura aprofundada, tira-se conclusões científicas dessas passagens. Bem interessante o livro, porém um pouco chatinho, de princípio.
Cassionei Petry disse…
Amigo imaginário, fantasmas, espíritos... na literatura sempre. Mas na vida real "non".
Roberto C. Belli disse…
Olá, Cassionei! Minhas decepções com o Canal Discovery começaram cedo, pois desde que comecei a assisti-lo tem dessas programações um tanto duvidosas no meio de algumas boas. Um exemplo foi um documentário sobre paleontologia que confirmava a existência de dragões. Isso mesmo, dragões. E nem se deram ao trabalho de informar que o documentário era uma peça de ficção. Daí, qualquer coisa no Discovery pode ser uma peça de ficção, já que não se preocupam com o teor da informação. Bom mesmo é o canal da National Geographic, pelo seu passado e pelo seu presente. E com o cuidado quanto à sua abordagem. Abraços.
Robson Duarte disse…
Esse comentário foi reomovido por um demônio.

Favor procurar a igreja mais próxima para tê-lo de volta.
Cassionei Petry disse…
Pois é, Roberto, as pessoas acabam acreditando que é real tudo.

Robson, o medo é um demônio remover meu blog!
Dexx disse…
Grande mano Cassionei. Como sempre, um texto muito bem escrito, e principalmente, um ponto de vista muito bem apresentado.
Infelizmente, hoje em dia, qualquer canal televisivo levanta a sua bandeira e prega sua palavra como a única verdade. A Record faz sua apologia à $ua igreja, a Globo agrada quem e$tiver no poder. Aqui no Paraná, a TV Educativa é usada pelo governo do Requião para desabafos, mais parecendo a ditadura chavista que uma democracia.
Bom termos textos assim alertando para "outras" verdades...

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