As múltiplas personalidades do escritor

Mais um cronista que gosto de ler é o Juremir Machado da Silva (aliás, inimigo do LFV), apesar de ele escrever para um veículo de comunicação do (argh!) Bispo Edir Macedo. Como estou escrevendo uma resenha (sai amanhã aqui e quarta na minha coluna na Gazeta do Sul) sobre um livro dele, achei interessante sua crônica de hoje, que aborda as contradições do escritor.

Múltiplas personalidades

Juremir Machado da Silva

Outro dia, num papo sobre Alfeu e Maniqueu, dois caras lá de Palomas, esta coluna babou no lenço vermelho ao dizer que a Pérsia é onde hoje está o Iraque. Leitores trataram, com toda razão, de chicotear o lombo do colunista com um rabo-de-tatu. Em lugar de Iraque, obviamente, devia estar escrito Irã. Talvez o lapso se deva ao fato de que Irã e Iraque têm agora um ponto em comum: as más relações com os Estados Unidos. Se bem que o Iraque já está ocupado. Com o Irã, pelo jeito, a parada será mais cara. Ou o erro é fruto das minhas múltiplas personalidades. Como sabem, eu não sofro de múltiplas personalidades. Gozo delas. Quer dizer, gozo com elas. Tem um cara dentro de mim (opa!, metaforicamente falando) que adora me pregar umas peças. Mas eu gosto muito dele.

Não é por acaso que a Record-RS, numa linda promoção dos meus livros, "Getúlio", "Solo" e "Aprender a (vi)ver" (um pacote por modestos R$ 35,00, a barbada do ano), está enfatizando justamente esse aspecto. Durmo escritor maldito, acordo cronista positivo, passo o dia como autor de romances históricos. Vez ou outra, todos se misturam e até brigam. Ou saem para tomar um vinho juntos. Acabam disputando a conta. Paga quem vende mais. A Record-RS está fazendo história por aqui. Além de incomodar a concorrência, quebrou o monopólio dos autores com direito à divulgação. Havia um clube com direito a lançamentos com cobertura de mídia e matérias quando festejavam aniversário ou faziam longas viagens até São Paulo. A Record-RS abriu o leque. Está oferecendo aos assinantes do Correio do Povo autor local com preço excepcional.

Aí o meu lado cronista positivo falou assim:

- Que beleza! Quem planta e cuida, acaba por colher.

Meu lado escritor maldito e cínico não perdoou:

- Aí, meu, está se dando bem, hein!

Meu lado escritor de romances históricos ponderou:

- Ao longo do século XX, a relação entre preço, divulgação e conteúdo tem sido decisiva para a consolidação dos projetos estéticos dos escritores.

- É isso mesmo. Não basta escrever, é preciso encontrar as condições adequadas de disseminação da obra - exultou meu lado positivo, terno, otimista e sempre batalhador.

- Que papo mais cabeça - sentenciou meu lado maldito.

- Adorei as fotos, especialmente a do charuto. Tu tens jeito para Getúlio - disse meu lado positivo.

- Tu? Ou eu? - questionou o maldito.

- Nós - respondeu o positivo.

- Cada um no seu tempo - equilibrou meu lado histórico.

- Aquela touquinha peruana, não sei, não? Ui, ui, ui!

- Mas aquele és tu, maldito!

- To fora! Não me consultaram.

- O importante é a perspectiva - diz o historiador.

- Vai ser um sucesso - vibra o positivo.

- Quero ver só se vai vender - fustiga o maldito.

- Pô, cara, tu és maldito, não mala - gritam os outros.

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