Soluções para a vida

por Cassionei Niches Petry

Não dá para levar a sério o Juremir Machado da Silva. Mesmo quando ele escreve sobre assuntos sérios. Sua ironia implacável engana muito gente. Quem não conhece seu estilo, pensa que ele não tem modéstia nenhuma, pois seguidamente se considera um dos maiores escritores do Brasil. Aliás, quase escrevo Machado de Assis como seu sobrenome. Muitas de suas crônicas lembram a autobiografia Ecce Homo, de Nietzsche, cujos capítulos são pérolas do egocentrismo, como “Por que sou tão sábio” ou “Por que escrevo livros tão bons”. E, assim como o filósofo que preconizou a morte de Deus, Juremir é um crítico dos costumes, da política, da mídia. Tem como objetivo derrubar ídolos, tanto nos textos do Correio do Povo e do seu blog, como nos programas de rádio em que participa. E também nos livros.

Um dos alvos de Juremir (me permitam usar o primeiro nome dele, resultado de uma intimidade de quem o lê e o escuta quase todos os dias) são os livros de autoajuda. Ironicamente, intitulou uma coletânea de crônicas de Aprender a (vi)ver. Fico imaginado quantas pessoas compraram o livro procurando mensagens edificantes, ou quantos livreiros o colocaram nas prateleiras de autoajuda. Li até uma crítica em que o leitor achou o livro fraco devido à utilização de chavões dessa área. Mas Juremir escreveu um livro de autoajuda para, com sua ironia, criticar a autoajuda. Ou, como ele mesmo afirmou em sua coluna há alguns dias, é a demonstração de como ele é contraditório.

No seu romance mais recente, Solo (Editora Record, 367 páginas), Juremir aborda mais uma vez a busca pelas soluções fáceis para os problemas. O que faz as pessoas procurarem esses paliativos? O personagem, um publicitário inteligente e sarcástico, resolve se trancar dentro de casa para assistir televisão e ler best-sellers. Seria uma tentativa de retroceder intelectualmente, após uma crise de existência por perder a esposa? Adora a “filosofia” do Louro José e o Canal Rural. Lê Dan Brown e Paulo Coelho. Não deixa de criticar esse caminho do emburrecimento. Segue, porém, esse mesmo caminho, para ver até onde vai dar. Claro que ele, conhecedor também da boa literatura, cita o poeta espanhol Antonio Machado: “Se hace camino al andar”. É o que ele faz. Em busca do autoconhecimento vai à Europa e depois ao Peru, numa “jornada de iniciação”. Se ele se encontra ou se desencontra, só lendo o livro para saber.

Juremir utiliza frases curtas, impactantes. Principalmente nas suas crônicas. É o chamado soco no estômago. No livro, esse estilo se encaixa bem devido à profissão do protagonista. Um exemplo: Com duas ou três frases de duplo sentido, pode-se ficar rico anunciando porcarias. Tentei minha grande sacada com um slogan para uma campanha de papel higiênico. (...) Bolei algo clean: “Conheça o seu papel na vida”. Ele narra a sua história como se estivesse conversando com o leitor. Destila um veneno contra as imbecilidades da mídia, das religiões, da política, dos meios intelectuais. Mas, principalmente, contra as pessoas cuja única função na vida é fazer m..., quer dizer, menos coisas importantes do que poderiam fazer.


Comentários

Luis Fernando disse…
Li "Aprender a (vi)ver" e achei interessante, mas quando terminei concluí que é um livro de... autoajuda. Não é difícil perceber quando o Juremir é irônico e quando não é, e nos seus momentos mais sérios do "Aprender", o texto que ele produz é de uma autoajuda sofisticada. É cheio de "mensagens edificantes"; se o leitor procurar por isso, não vai se decepcionar.
O que não é demérito, se o texto for bom e fundamentado. Não tenho nada contra esse tipo de literatura, se for consistente.
Esse "Solo" eu não li ainda, mas estou curioso.

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