Relendo “O estrangeiro”
Devido aos 50 anos da morte de Albert Camus, me deu uma vontade de reler alguma coisa dele, ou seja, meus planos de leitura para as férias já se modificaram. Planejar não é comigo.
Reli “O estrangeiro”, numa edição da minha biblioteca contendo anotações que fiz a lápis. Me chamou a atenção que, na primeira leitura, sublinhei várias vezes as palavras sol, suor, calor, e outras relacionadas ao verão da cidade da Argélia, onde se passa a história. Para quem não leu o romance, é importante saber que o personagem principal, Meursault, cometeu um assassinato e alegou ter matado por causa do sol. Desde o enterro da mãe do protagonista até o encontro na praia com os dois árabes, o sol e o calor são presença constante, parecendo influenciar as atitudes do personagem. Me veio à mente o quanto o verão me irrita, fico uma pessoa intratável devido aos dias quentes, pois transpiro muito e fico com a testa quase fervendo. Será que sou um assassino em potencial?
Agora, na segunda leitura, dei mais atenção para outro aspecto interessante que é a questão do ateísmo, presente em quase todos os textos de Camus. Meursault declara, indagado pelo juiz de instrução, não acreditar em deus. No entanto, me pareceu inverossímil essa afirmação, pois sempre que era perguntado sobre algo Meursault dizia ser indiferente. Quando sua namorada, Maria, perguntou se queria casar com ela, respondeu “que tanto me fazia, mas que se ela de fato queria casar, estava bem.“ Portanto, afirmar com convicção que não acreditava em deus e receber uma forte reprimenda do juiz me soou falso. Se interpretarmos o sol como alegoria para o conhecimento, como no “Mito da caverna” de Platão, percebe-se que o conhecimento o incomoda, que ele prefere sua vida simples, sem ambições, como ele disse ao seu patrão. Camus, portanto, forçou bastante ao querer colocá-lo como um personagem ateu, diferente do médico Rieux, de “A peste”, esse sim um ateu, pois tem convicção e motivos para sê-lo.
Aproveitei para assistir ao filme de Luchino Visconti, que é bastante fiel ao livro, mas muito distante em qualidade se comparado com outra adaptação do diretor italiano, “Morte em Veneza”.
Comentários
Você deixou um link na comunidade Camus e aqui vc diz que espera que não fiquemos à vontade.
Que estranho!
Mas gostei de seu blog.
Agora, essa questão do sol é séria, todo mundo fica um pouco mais nervoso e menos ponderado nos picos do verão. Pelo menos, eu fico.
bom, o que o Luis Fernando disse (desculpa a intromissão) calha perfeitamente ao que eu disse na comunidade. aliás, ele disse o que eu quis dizer, só que de modo mais culto e acadêmico. haha
enfim, o Lobo da Estepe me interessa muito.
e... eu tenho planos para estas férias também, mas é o de reler todos os meus livros.
espero que mantenha contato, a opinião de um professor (não é isso?) é bem importante pra mim.
Luis, "A queda" ainda não li. E não creio que quem tenha desdém pelo conhecimento seja ateia.
Chytherea, sim, lá eu coloquei os livros dos quais escrevi resenhas ou comentários. É muito demorado ficar acrescentando livros que li, ficaria séculos lá...hehe. Quanto ao Lobo da estepe, é um dos meus livro prediletos, vou escrever um dia sobre ele, para os "raros" lerem.
não sou afeito a ler no computador, mas pode servir se eu quiser procurar algumas certas passagens.
É necessário ter mais convicção para crer do que para descrer. E se toda a indiferença de Mersault derivar, justamente, do fato de ele não acreditar na transcendência? "Se Deus não existe, tudo é permitido"... penso (e suspeito que Camus também pensava) que Mersault é a encarnação dessa fórmula: o "homem absurdo" por excelência, a quem tudo é indiferente, exatamente porque a existência não possui um fundamento último.