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Diário crônico XX – O silêncio



Já fui um indivíduo que fazia muito barulho. Para mim, música deveria ser sempre ouvida no volume máximo, por exemplo. Andava às vezes com meu “boombox” de pobre (leia-se “microsystem” do Paraguai) pelas ruas da cidade ouvindo rap daqueles com o bumbo bem pesado, como os do Run DMC ou LL Cool J. Também gostava de lugares barulhentos, como boates ou ensaios de escolas de samba.
O tempo foi passando, fui amadurecendo e comecei a prezar o silêncio. Silêncio para criar (escrever, compor), silêncio para ler, silêncio para ouvir música (em volume baixo), silêncio para ouvir meus próprios pensamentos. Em contrapartida, o mundo começou a ficar mais barulhento: carros, máquinas, música, risadas, TV ligada, fogos de artifício, cachorros, crentes em suas igrejas, escolas de samba, bailes e humanos em geral fazem questão de mostrar para todo mundo até aonde vai sua capacidade de fazer barulho.
O mundo ficou mais barulhento ou eu fiquei mais intolerante?
Contraditório que sou desde o nascimento, fui escolher um profissão em cujo ambiente o silêncio deixou de imperar há algum tempo. Ser professor é aguentar não aguentando conversas, gritos, berros de alunos, tanto na sala de aula quanto no pátio. Aliás, para muitas pessoas gritar é sinal de que a criança está se divertindo, aproveitando sua época. Não são somente os alunos, mas também os professores. Rubem Alves uma vez chamou de “bosques das professoras cacarejantes” um grupo sempre presente em suas palestras que fala alto, grita.
“O silêncio foi a primeira coisa que existiu”, cantou Arnaldo Antunes. Silêncio, diga-se, que ninguém ouviu. Qual teria sido o primeiro barulho, me pergunto. Um trovão, os raios, os pingos da chuva, um fruta caindo do pé, as vozes dos animais, a voz de um ser autodenominado superior quebrou o silêncio? Seria o Deus bíblico o primeiro filha da puta que incomodou os outros perturbando a paz?
Uma coisa é certa: o barulho do homem é sempre insuportável, ou melhor, o barulho que o outro faz, não o que eu faço.
E vamos ouvir agora o 4’33’’ do John Cage.

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