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Diário crônico XXV– Livros, “shelfies”, ostentação





Li ontem uma reportagem sobre as “shelfies”, espécie de “selfie”, só que de estantes de livros. Já sou há um bom tempo adepto das “shelfies”, postando a evolução das prateleiras da minha biblioteca, uma espécie de ostentação, outra palavrinha que está em moda. Pode ser pelo simples exercício de narcisismo ou para incentivar outros a também formarem a sua biblioteca. Não sei qual o meu caso, mas prefiro compartilhar nas redes sociais fotos dos livros que tenho a postar fotos do que estou comendo (se bem que já compartilhei fotografias minhas assando um saboroso churrasco). Apesar de estar acima do peso, devoro mais livros do que comida.
Por outro lado, surge a questão: por que tantos livros? A pergunta comum que ouço é se já os li todos. Lógico que não, porém o simples fato de tê-los à disposição para ler a hora que quero, folhear e cheirar de vez em quando, consultar um trecho, correr os dedos sobre as lombadas, apreciar sua disposição nas estantes e etc., justifica a construção de uma biblioteca particular. Ora, não pergunto para ninguém por que a pessoa assina um pacote de TV a cabo com centenas de canais se não pode assistir a todos!
Não façam essa pergunta a um leitor como eu. É uma questão que não merece ser respondida.
Além das três estantes abarrotadas de livros que tenho no meu escritório (que chamo às vezes de caverna, outras vezes de toca, outras de bunker ou simplesmente meu quartinho), tenho talvez milhares de livros em diferentes formatos digitais que abarrotam arquivos no meu computador. Muitos foram comprados, outros presenteados e alguns baixados de diferentes sites na internet, inclusive para apreciação e depois a compra na versão impressa tradicional. Boa parte eu não teria condição de ler, principalmente as edições estrangeiras, que se tornam muito caras para adquirir.
Pois a cada mês a quantidade de livros vai aumentando, novos lançamentos e relançamentos vão surgindo, novos títulos aparecem na Estante Virtual, que reúne sebos do Brasil inteiro e facilitou a venda de volumes usados, novos “e-books” aparecem para download. E a necessidade de comprar mais uma estante e aumentar a memória do computador cresce em proporção.
Tantos livros para ler e tão pouco tempo para fazê-lo. E ainda insisto em escrever. Não seria melhor parar de escrever para somente ler?

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