Avançar para o conteúdo principal

Diário crônico XXI – Tempo das “lentas”, tempo de “ficar”



 Ele tinha por volta de 12 anos quando começou a sair e ir para as festas com os amigos. Bebia, fumava, dançava, vez ou outra ficava com alguém, dava uns beijinhos, mas não transava. Era tímido para “chegar numa guria” e quando tirava uma para dançar na hora da “lenta” ficava pensando no que dizer, porém nada dizia. Sim, havia a chamada “música lenta” nesse tempo. Era o momento em que as garotas paravam ao redor da pista e os rapazes caminhavam em círculos até escolher uma, com o sério risco de “levar um carão”. Esse era o medo do nosso adolescente, levar um “não”. Um “não” sempre dói muito.
Quem arriscava e tinha sucesso, tinha que passar pelo segundo passo que era tentar “ficar” com a guria. Tinha até o final da música para atingir seu objetivo, caso contrário partia para outra. Uma música do Brian Adams era fatal nessas horas: “(Everything I do) I do it for you". A canção dava uma parada quase no final e recomeçava segundos depois. Se a guria não desgrudava do cara nessa hora, era sinal de que sua conversa havia dado certo e poderia perguntar se queria “ficar” com ele. Se ela aceitasse, permaneciam durante o resto da festa juntos e depois ele a levaria embora até a porta de casa (em muitos casos com uma parada estratégica em alguma construção para uns “pegas” mais avançados).
Nosso guri de 12 anos, na hora da lenta, se não estava disposto a se arriscar, gostava de ficar próximo à caixa de som e acompanhava a música como se estivesse cantando com o artista ou fazia solos de guitarra no ar, ajoelhando-se no chão, dedilhando no ar notas inexistentes. “Purple rain”, do Prince, “Please, don’t go girl”, do New Kids on the Block, “Don’t cry” ou “November rain”, do Guns N’ Roses, faziam parte do seu repertório.
Hoje o garoto, já com seus trinta e poucos anos de idade, se dá conta que os adolescentes não têm mais a hora da lenta para chamar a guria para dançar. Também nem precisam disso. Todos dançam separados e basta um olhar, um sinal ou mesmo avançar sem avisar em cima da “mina” para o jovem conseguir ficar com ela. E o ficar também é diferente. O guri fica com duas, três, quatro gurias numa balada. Ou bem mais? E sem a obrigação de levar para casa. Os tempos são outros. Ah, o tempo.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Um toque

Chuva, café, música clássica e leitura. Daqui a pouco, o cachimbo. Combinação quase perfeita para uma manhã de dezembro, já de férias, final de ano, final de um péssimo ano. Os dedos escorrem pelas teclas com aquela necessidade de escrever algo. Não quero, porém, fazer nenhum balanço de final de ano como costumava fazer. As coisas ruins suplantaram as boas, peso maior para a morte trágica do meu pai, cujo rosto pude tocar pela última vez há pouco mais de dois meses. Os dedos continuam tateando o teclado. Há pouco estava lendo o romance O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil, editado pela L&PM. O protagonista, Julius, é um violoncelista, que tateia as cordas buscando o som perfeito, que toca no seu instrumento entre as pernas (o violoncelo, que fique claro) como se tocasse as curvas do corpo de uma mulher, que toca os cobertores que o protegem do frio do pampa, que toca o corpo das mulheres (Klarika, Constanza) como se tocasse seu cello. O toque é a preliminar do prazer…